IA pode estar superestimada, mas o potencial é maior do que você imagina

Compartilhe este artigo:

O mercado está em êxtase com o potencial transformador da inteligência artificial, e não é para menos. Empresas gigantes como Amazon, Alphabet, Meta e Microsoft estão dispostas a investir US$ 500 bilhões nos próximos três anos para dominar essa corrida tecnológica. Para muitos, isso lembra os investimentos exagerados na internet no final dos anos 1990, o que levanta a pergunta: estamos vivendo uma bolha ou uma oportunidade real?

A verdade é que, muitas vezes, superestimamos os impactos no curto prazo e subestimamos as oportunidades de longo prazo. Já vimos isso acontecer com computadores pessoais, internet e computação em nuvem, mercados que acabaram sendo muito maiores do que as estimativas iniciais.

Essa percepção de curto prazo pode até gerar volatilidade, mas o que precisamos focar são as bases dessa transformação.

Fonte: Morgan Stanley AI Guidebook: Quarta Edição, 23 de janeiro de 2024. Os totais reais referem-se a 2000 para usuários de PCs e internet; 2013 para remessas de smartphones; e 2020 para receita de provedores de nuvem.

Onde os bilhões gastos em IA vão gerar valor para os investidores?

Tudo está na “pilha tecnológica” que dá suporte à IA:

  1. Semicondutores – Chips que fazem a mágica acontecer (NVIDIA, ASML).
  2. Infraestrutura em nuvem – Data centers que processam os dados (Microsoft, Amazon).
  3. Modelos de linguagem – Como o ChatGPT, que entrega o valor ao consumidor.
  4. Aplicações finais – Produtos e serviços que usamos no dia a dia.

Esses investimentos geram oportunidades para empresas em cada camada da cadeia. Mas, como sempre, nem todas executarão bem suas estratégias. Investidores precisam observar quais empresas conseguem se destacar e quais podem enfrentar desafios pelo caminho.

A base da IA ainda depende da velha economia

Por mais futurista que pareça, a IA ainda depende de recursos tradicionais, como cobre, energia e infraestrutura física. Isso significa que setores como energia, mineração e utilities também estão capturando valor nesse movimento.

Grandes empresas de tecnologia estão investindo não só em chips e softwares, mas também na construção de data centers próximos a fontes de energia confiáveis, firmando contratos de longo prazo com fornecedores. Esse movimento deve criar oportunidades de investimento consistentes ao longo dos próximos anos.

Os desafios da infraestrutura de IA

A alta demanda também traz seus problemas. Escassez de energia, materiais básicos e equipamentos podem desacelerar o ritmo de expansão. Além disso, a urgência de muitas empresas em garantir suprimentos pode criar “falsos sinais de demanda”, como pedidos duplicados, o que pode impactar o retorno sobre esses investimentos.

Os dois ciclos da IA

Especialistas apontam que estamos vivendo o primeiro ciclo da IA, voltado ao consumidor, impulsionado por publicidade e aplicações mais acessíveis. Esse ciclo pode sofrer uma correção no futuro.

No entanto, o segundo ciclo – o da adoção corporativa – promete ser mais longo e gradual, à medida que as empresas incorporarem a IA em seus processos e operações. Esse é o momento em que veremos os impactos mais profundos.

Outras tendências a observar

A IA é apenas parte da história. Grandes tendências como veículos elétricos e reindustrialização nos EUA também estão movimentando o mercado. Empresas menores, como Comfort Systems e Modine Manufacturing, que fornecem sistemas essenciais para data centers e infraestrutura elétrica, estão surfando essa onda.

Mesmo com as gigantes dominando os retornos nos últimos anos, as pequenas empresas estão negociando em níveis atrativos, com valuations próximos aos mais baixos em 20 anos. Essa desconexão cria oportunidades para investidores que buscam inovação a preços mais razoáveis.

Superciclo de investimentos vai além dos EUA

Na Europa, indústrias como aviação, data centers e construção estão aproveitando a mesma onda de crescimento. Empresas como a Airbus e a Schneider Electric estão bem-posicionadas para capturar valor, com carteiras de pedidos e crescimento de vendas de dois dígitos.

Essa diversificação global reforça a importância de olhar para além das fronteiras americanas, buscando oportunidades em setores resilientes e inovadores.

Fontes: Capital Group, FactSet. A receita por região é estimada pela FactSet com base nos números mais recentes divulgados. Dados de 30 de novembro de 2024. Os exemplos de empresas citados são apenas para fins ilustrativos e não devem ser interpretados como uma recomendação de investimento.

O equilíbrio será a chave para 2025

Com tantas tendências positivas, é fácil se empolgar. Mas também existem riscos: valuations elevados, tensões comerciais e possíveis gargalos.

O segredo? Diversificação, paciência e consistência no longo prazo.

Como costumo dizer, o mercado recompensa quem faz o dever de casa. Permanecer investido, ajustando seu portfólio para não estar exposto demais a uma única tendência, será essencial no próximo ano. Afinal, o que conta é construir riqueza de forma consistente, aproveitando as oportunidades sem perder de vista os fundamentos.

Fabio Fares
Educador financeiro e especialista em investimentos internacionais